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MMA em 2017: em ano de May-Mac, GSP, Demetrious e Cyborg fazem história

uta de boxe entre Mayweather e McGregor foi mais falada que qualquer evento do UFC, mas campeões reforçaram seus casos na disputa pelo posto de maior da história. Jones e Silva decepcionam com novos dopings

O ano de 2017 foi estranho no MMA. Num período de 365 dias que teve tantos momentos históricos de lutadores solidificando seus legados – tanto para o bem, como Cris Cyborg, Demetrious Johnson e Georges St-Pierre, como para o mal, como Jon Jones e Anderson Silva – o principal assunto foi uma luta de boxe. Por oito meses, independente do que os artistas marciais mistos faziam nos cages de UFC, Bellator, ONE Championship, KSW, entre outros, parecia que só se falava em Conor McGregor x Floyd Mayweather Jr.

No princípio, era a incredulidade de que o UFC poderia liberar seu campeão dos pesos-leves para lutar boxe contra o maior nome da “Nobre Arte” nesta década, 11 anos mais velho e aposentado havia dois anos. Porém, a resposta amplamente positiva do público a cada boato sobre o duelo provou que ele gerava muito interesse, e a incredulidade foi dando lugar à curiosidade sobre o quão grande o evento seria. Em 14 de junho, surgiu o anúncio oficial, um momento histórico por si só, já que o UFC negou pedidos semelhantes de suas estrelas no passado.

A promoção do evento batizado de “May-Mac” não teve precedentes: os dois lutadores embarcaram numa turnê internacional por quatro cidades em três países, e quebraram recordes de público e audiência por onde passaram. Contudo, a luta em si teve reação mista, entre fãs que comemoraram por McGregor ter durado 10 rounds antes de levar um nocaute técnico do invicto multicampeão mundial, e críticos que debocharam da técnica do irlandês e acusaram Mayweather de “administrar” a luta para vender a ilusão de equilíbrio competitivo. O evento teve 6,5 milhões de pacotes de pay per view vendidos no mundo inteiro, mas os 4,3 milhões vendidos na América do Norte ficaram abaixo das 4,6 milhões de vendas da luta entre Mayweather e Manny Pacquiao em 2015, marca que os organizadores queriam superar.

May-Mac ajudou o UFC a ter seu melhor ano financeiramente, de acordo com seu presidente, Dana White, e pode ganhar ainda mais significância histórica se a organização prosseguir com os planos de promover também lutas de boxe. Pode ter sido também a última luta profissional de McGregor, que recebeu a maior bolsa de sua carreira no evento – oficialmente, US$ 30 milhões (R$ 93 milhões na cotação da época), e estimados US$ 100 milhões (R$ 310 milhões) no total, incluindos sua parcela das vendas de pay per view e da receita global. Ele segue sem defender o cinturão peso-leve que conquistou em novembro de 2016. Ironicamente, a única aparição de McGregor dentro de um cage de MMA em 2017 foi na organização rival Bellator, que invadiu para comemorar com um companheiro de equipe antes mesmo de a luta ser finalizada, gerando uma enorme confusão pela qual não foi oficialmente punido.

O retorno triunfal de Georges St-Pierre

Na ausência de McGregor, a grande estrela de 2017 no MMA foi Georges St-Pierre. O lendário lutador canadense não lutava desde novembro de 2013, quando abriu mão do cinturão dos pesos-meio-médios (até 77kg) para se afastar do esporte. GSP fez seu retorno aos 36 anos de idade, quase quatro anos depois, em 4 de novembro, como desafiante de Michael Bisping, campeão da categoria de cima, o peso-médio (até 84kg), na luta principal do UFC 217, em Nova York. Ele não decepcionou: demonstrou a velha habilidade nas artes marciais e finalizou o inglês no terceiro round. Um feito sem precedentes que fortaleceu seu argumento na discussão do melhor lutador de todos os tempos.

O evento foi o maior sucesso do Ultimate no ano, com estimados 874 mil pacotes de pay per view vendidos. A noite teve ainda dois outros desafiantes, Rose Namajunas e TJ Dillashaw, tomando os cinturões dos campeões peso-palha e peso-galo, respectivamente, com nocautes – foi a primeira vez na história do UFC que três campeões perderam o título na mesma noite. St-Pierre, contudo, abriu mão do cinturão pouco mais de um mês depois, alegando que problemas de saúde o convenceram a não lutar mais entre os médios. Ainda não se sabe se ele continuará lutando, e se o fará de volta no peso-meio-médio.

Georges St-Pierre voltou a ser campeão do UFC quatro anos depois de sua última luta (Foto: Getty Images)

Georges St-Pierre voltou a ser campeão do UFC quatro anos depois de sua última luta (Foto: Getty Images)

Demetrious Johnson quebra recorde de defesas de cinturão

GSP foi a estrela mais popular do MMA em 2017, mas os lutadores de maior destaque foram Demetrious Johnson, Cris Cyborg e Max Holloway. Johnson se estabeleceu de vez como melhor lutador peso por peso do mundo e campeão mais dominante da história do UFC, ao quebrar o recorde de defesas de cinturão consecutivas da organização. Com duas vitórias no ano, “Mighty Mouse” chegou a 11 vitórias seguidas como detentor do título dos pesos-moscas, superando as 10 defesas bem sucedidas de Anderson Silva no peso-médio entre 2007 e 2012. A quebra do recorde foi em grande estilo, com uma impressionante chave de braço encaixada enquanto ele derrubava Ray Borg, no UFC 216, em 7 de outubro.

Golpe de Demetrious Johnson para finalizar Ray Borg foi parar até no videogame (Foto: Getty Images)

Golpe de Demetrious Johnson para finalizar Ray Borg foi parar até no videogame (Foto: Getty Images)

Cris Cyborg, enfim reconhecida no UFC

O UFC 214 de 29 de julho ficou marcado negativamente por causa de Jon Jones – mais sobre isso num instante – mas também positivamente por conta de Cris Cyborg. Sem perder desde sua estreia em 2005, a peso-pena brasileira era amplamente considerada a melhor lutadora do mundo e colecionou títulos no Strikeforce e Invicta FC, mas faltava o reconhecimento que vem com o cinturão do UFC. Ela enfim teve sua oportunidade em Anaheim, EUA, cidade vizinha à sua casa em Huntington Beach, e se consagrou com uma vitória por nocaute técnico contra Tonya Evinger. Em 30 de dezembro, Cyborg defendeu o cinturão com uma vitória por decisão unânime sobre Holly Holm, ex-campeã peso-galo, e consolidou seu posto entre os maiores artistas marciais mistos de todos os tempos.

A redenção: Cris Cyborg enfim é campeã do maior evento de MMA do mundo (Foto: Alexandre Loureiro/Divulgação UFC  )

A redenção: Cris Cyborg enfim é campeã do maior evento de MMA do mundo (Foto: Alexandre Loureiro/Divulgação UFC )

Uma nova era no peso-pena

A conta de cinturões do UFC do Brasil permaneceu em dois, mas só porque Cris Cyborg se juntou a Amanda Nunes como campeã da organização. José Aldo viu seu reinado sobre a divisão peso-pena masculina se encerrar efetivamente em 3 de junho, quando foi derrotado pelo haviano Max Holloway, então campeão interino, em pleno Rio de Janeiro. O brasileiro foi presenteado com uma revanche imediata no UFC 218 após Frankie Edgar, apontado como primeiro desafiante do novo campeão, se lesionou menos de um mês antes do evento do dia 2 de dezembro. O resultado, porém, foi o mesmo: nocaute técnico no terceiro round para Holloway, o “Abençoado”, que, com 12 vitórias consecutivas, se consolidou como rei absoluto da categoria.

Quem pode parar Max Holloway? Os últimos 11 pesos-penas que tentaram, falharam (Foto: Getty Images)

Quem pode parar Max Holloway? Os últimos 11 pesos-penas que tentaram, falharam (Foto: Getty Images)

Doping volta a assombrar Spider e Bones

2017 deveria ser o ano das redenções de Anderson Silva e Jon Jones, outrora considerados os dois melhores lutadores peso por peso do mundo. Aos 41 anos de idade, “Spider” voltou a vencer uma luta após cinco anos desde sua última vitória, ao bater Derek Brunson no UFC 208, em 11 de fevereiro. “Bones” retornou de suspensão de um ano por doping e retomou o cinturão dos pesos-meio-pesados do arquirrival Daniel Cormier, com um genial nocaute com chute na cabeça na luta principal do UFC 214.

Entretanto, o assombro com os feitos da dupla logo se tornou frustração com novas falhas em exames antidoping. Jones foi flagrado com o esteroide turinabol em teste realizado na véspera da luta contra Cormier, teve sua vitória anulada e o título devolvido ao adversário. É o seu terceiro resultado positivo para doping. Em novembro, Silva foi pego em exame realizado fora de período de competição, três semanas antes da data em que deveria enfrentar Kelvin Gastelum na estreia do UFC em Xangai. Foi a segunda vez na carreira que o brasileiro foi flagrado por potencial violação da política antidoping, embora a substância encontrada não tenha sido revelada. Ambos os lutadores passam por processos de investigação e julgamento da Agência Antidoping dos EUA (USADA, na sigla em inglês), responsável pelo controle de substâncias do UFC, e estão suspensos preventivamente, sem prazo para retornar.

Anderson Silva e Jon Jones mancharam seus legados com novos exames positivos de doping (Foto: Getty Images / Evelyn Rodrigues)

Anderson Silva e Jon Jones mancharam seus legados com novos exames positivos de doping (Foto: Getty Images / Evelyn Rodrigues)

Wand e Sonnen enfim se enfrentam dentro do cage

Wanderlei Silva e Chael Sonnen já haviam brigado no set de filmagem do TUF Brasil em 2014, mas a rivalidade só foi ter sua resolução dentro de um cage em 24 de junho, em Nova York, no icônico ginásio Madison Square Garden. O combate foi o principal do Bellator 180, maior evento do Bellator no ano, com direito a três disputas de cinturão, luta do lendário Fedor Emelianenko e até execução dos hinos nacionais de Brasil e EUA ao vivo no ginásio. Sem lutar MMA desde março de 2013, Wand até teve seus momentos – balançou o americano com cruzados no primeiro e segundo rounds, tentou ajustar uma guilhotina – mas, em geral, foi uma reprise estendida da confusão no TUF: Sonnen baixando a cabeça, indo nas pernas, derrubando o brasileiro e amarrando por cima. No final, o americano venceu por decisão unânime, e o “Cachorro Louco” deixou o cage irritado, com um empurrão no rival.

Chael Sonnen derrubou e dominou Wanderlei Silva no chão no Bellator 180 (Foto: Bellator MMA / Lucas Noonan)

Chael Sonnen derrubou e dominou Wanderlei Silva no chão no Bellator 180 (Foto: Bellator MMA / Lucas Noonan)

Balança faz mais vítimas, e Califórnia busca reformar pesagem

Os cortes de peso drásticos continuaram sendo os maiores “vilões” do MMA em 2017. Segundo levantamento do site “MMA Fighting”, 36 de 39 eventos do UFC tiveram lutadores que não bateram o peso ou foram forçados a desistir de seus combates devido a complicações com o corte de peso. Alguns casos foram graves, como o de Khabib Nurmagomedov, que foi levado ao hospital e não conseguiu sequer comparecer à pesagem oficial do UFC 209, em março. O mesmo aconteceu com Sijara Eubanks, finalista do TUF 26 e que disputava o cinturão inaugural do peso-mosca feminino. Kevin Lee e Joanna Jedrzejczyk disseram estar à beira da morte em seus cortes de peso para o UFC 216 e 217, respectivamente – ambos terminariam derrotados.

Os problemas não se limitaram ao UFC. A brasileira Gabi Garcia falhou em bater o limite de 95kg para uma luta no Rizin Fighting Federation, no Japão, por mais de 12kg, e revelou ter sofrido com sangramentos no nariz e pressão alta que a impediram de cortar peso apropriadamente. O americano Clovis Hancock alegou que seu estado de desidratação severa após um corte de peso extremo contribuiu para que ele fosse apagado numa luta pelo LFA, no qual precisou ser reanimado após sofrer um ataque cardíaco e insuficiência renal.

A Comissão Atlética da Califórnia (CSAC, na sigla em inglês) tomou a frente no movimento para tentar coibir os cortes de peso extremos. Em maio, a entidade aprovou um plano de 10 medidas, que inclui pesagens durante o mês anterior à luta, exigência de liberação de médicos para que certos lutadores atuem em determinadas categorias de peso, multas mais caras por falhas em bater o peso e recomendação de que lutadores que estejam com o peso mais de 10% acima do valor de suas divisões no dia de suas lutas subam de categoria em seguida. A CSAC já começou a implementar essa política, mas outras comissões atléticas estaduais ainda não adotaram o plano.

ONE Championship ganha seu “Conor McGregor asiático”

O UFC estreou na China continental e realizou eventos no Japão e na Cingapura, mas o evento que dominou a Ásia em 2017 foi o ONE Championship. A organização realizou 14 eventos no continente asiático no ano, incluindo visitas à China, Tailândia, Cingapura, Mianmar, Filipinas, Indonésia e Malásia, e atingiu um bilhão de potenciais telespectadores. No cage, o ONE também encontrou seu equivalente a Conor McGregor: o australiano de raízes asiáticas Martin Nguyen, que, num espaço de quatro meses, conquistou os cinturões dos pesos-penas e dos pesos-leves. Assim como o irlandês, Nguyen não parece muito interessado em defender seus títulos, e vai disputar seu terceiro cinturão em 24 de março de 2018, no peso-galo, contra Bibiano Fernandes. O brasileiro, companheiro de treinos de Demetrious Johnson, é o recordista de defesas de cinturão consecutivas do ONE, com seis vitórias.

Martin Nguyen posa com seus dois cinturões do ONE Championship (Foto: Divulgação)

Martin Nguyen posa com seus dois cinturões do ONE Championship (Foto: Divulgação)

KSW realiza segundo evento de maior público da história

O maior evento de 2017, pelo menos em termos de público, foi o KSW 39: Colosseum, em 27 de maio. Maior organização do esporte na Polônia e em vias de expansão pela Europa, o KSW lotou um estádio de futebol em Varsóvia para entrar de vez no mapa do MMA mundial. Com 57.766 pessoas presentes, o torneio superou o UFC 193 (56.214 pessoas) como segundo maior público ao vivo da história do MMA moderno, atrás apenas do Pride Shockwave de 2002, que teve 71 mil espectadores. O evento teve cinco disputas de cinturão, incluindo as vitórias da brasileira Ariane Lipski, que lhe garantiu o título peso-mosca da organização, e do brasileiro Kleber Kolke, valendo o título peso-pena. O KSW também marcou território ao renovar contratos com os pesos-médios Mamed Khalidov e Michal Materla, ambos sondados pelo UFC.

Estádio nacional de Varsóvia teve mais de 57 mil pessoas presentes para assistir ao KSW (Foto: Reprodução)

Estádio nacional de Varsóvia teve mais de 57 mil pessoas presentes para assistir ao KSW (Foto: Reprodução)

Via COMBATE

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