background img
20180710-110806

Presidente da Conmebol vê voto de Coronel Nunes como traição: “Vergonha”

Alejandro Domínguez critica colega da CBF por votar no Marrocos para a sede da Copa do Mundo de 2026, ação que provocou uma crise dentro da confederação sul-americana

presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, falou abertamente sobre a crise instaurada na confederação por conta do voto do presidente da CBF, Antonio Carlos Nunes, no Marrocos para sede da Copa do Mundo de 2026. Ele deixou claro que se sentiu traído pelo Coronel Nunes, que escolheu a candidatura africana na eleição realizada no último congresso anual da Fifa, e rasgou um acordo entre as 10 associações nacionais de futebol sul-americanas para votar no trio Estados Unidos-México-Canadá.

– Claro que sim (sentimento de traição). Não ajuda a imagem do Brasil, muito menos da Conmebol. Então é um tema de muita vergonha – afirmou Alejandro Domínguez, em entrevista à TV GLOBO e ao Globoesporte.com, em São Petersburgo, na última terça-feira.

Alejandro Domínguez fala sobre o episódio do Coronel Nunes

Alejandro Domínguez fala sobre o episódio do Coronel Nunes

O combinado entre os membros da Conmebol era eleger a candidatura da América do Norte, formada por Estados Unidos, México e Canadá (que seria a vencedora). Em troca desse apoio, a confederação sul-americana esperava ter votos para a sede da Copa do Mundo de 2030, quando estariam na disputa Argentina, Paraguai e Uruguai, juntos. O acordo havia sido formalizado com três reuniões, em abril, maio e junho, em Buenos Aires, Assunção e Moscou, respectivamente. Signatário, o presidente da CBF esteve em todas. Mas na última hora, escolheu diferente.

– Estando aqui na Rússia, voltamos a nos reunir e ninguém manifestou: “Tenho opinião contrária, quero que se respeite”. Teríamos que respeitar, mas nada disso aconteceu. Fomos, e a votação não era secreta – comentou Alejandro Domínguez, após relembrar os encontros dos representantes da Conmebol antes da crise se instaurar.

“Quando saiu o resultado, vi que o Brasil havia votado em Marrocos, perguntei ao Fernando Sarney (vice da CBF) o que havia acontecido. E ele estava completamente surpreso com o que havia acontecido”

Daniel Andrade e Marcos Uchôa entrevistam Alejandro Domínguez (Foto: Foto: Rodrigo Lois)

Daniel Andrade e Marcos Uchôa entrevistam Alejandro Domínguez (Foto: Foto: Rodrigo Lois)

Alejandro Domínguez também falou sobre a participação dos países sul-americanos na Copa do Mundo de 2018, o futuro do torneio, com 48 seleções, Copa América de 2019, Copa Libertadores, entre outros temas.

Confira outros trechos da entrevista com o presidente da Conmebol:

Globoesporte.com: Qual a sua opinião sobre Rogério Caboclo (diretor-executivo da CBF e presidente a partir de abril de 2019)?
 Minha relação com ele é muito boa. Quando aconteceu a eleição, ele me ligou e disse que se tornaria responsável pelo assunto. O Brasil é tremendamente importante para a minha gestão. O Brasil teve problemas com a Conmebol, mas isso não é bom para o Brasil, muito menos para Conmebol. Quero que o Brasil se aproxime mais e saiba da importância da Conmebol. É uma organização que depende deles.

Como mudar a imagem da Conmebol?
– O nível de organização já mudou, demos um passo interno muito importante. Tivemos que estruturar administrativamente, fazer um estatuto que defende a Conmebol das pessoas. O estatuto anterior defendias as pessoas da Conmebol. Partindo disso, todos foram contratados por capacidades profissionais. Em nenhum momento pudemos parar para fazer mudanças. Importante dizer que mudanças não podem acontecer em um dia. Existem contratos que se cumprem por ser uma entidade séria. Muitos eram ruins e prejudiciais e tivemos que fazer acordos para terminar e não pagar indenizações ridículas.

Alejandro Domínguez fala sobre o processo de mudança da imagem da Conmebol

Alejandro Domínguez fala sobre o processo de mudança da imagem da Conmebol

Como você viu a participação dos países sul-americanos nessa Copa?
– Vi a participação com muito bom futebol, mas creio que tiveram motivos para não avançarem. Com isso, temos o dever de analisar e trabalhar, o que fazer para os próximos quatro, oito, 12 anos. Para que a América do Sul volte ao caminho de ganhar títulos internacionais. O Brasil, para mim, era candidato a Copa do Mundo. E hoje, sigo dizendo, foi a melhor equipe posição por posição durante o Mundial. Mas no futebol se ganha e se perde, e o Brasil perdeu quando não podia.

O que acontece com a Argentina?
– Vou citar um exemplo que uso para minhas análises. Assumi em janeiro de 2016. Em 2016, a AFA tinha um presidente e um técnico. Hoje, em junho, julho de 2018, já passaram três presidentes e quatro técnicos. Em dois anos e meio. Não acredito que haja um responsável, mas lamentavelmente as mudanças geraram desordem. É muito difícil que a ordem perca para a desordem. Quanto tem três presidentes e quatro técnicos é complicado. Não estou usando como desculpa, nem culpando ninguém. A Conmebol viveu o reflexo de um tsunami político e administrativo. E isso se reflete no campo de jogo.

Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol (Foto: Foto: Rodrigo Lois)

Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol (Foto: Foto: Rodrigo Lois)

Diferenças associações sul-americanas passaram por crises nos últimos anos. A modernização é obrigatória?
– Creio que houve muitos motivos para a crise ocorrer. Não houve mudança, para ter novas ideias. Quando o mesmo grupo fica por 30 anos, independentemente de corruptos ou não, vão acabar tendo problemas. Até 1998 a América do Sul tinha mais campeões intercontinentais que a Europa e mais campeões do mundo. De lá para cá, a Uefa mudou como instituição, se organizou. O Resultado hoje é que têm mais clubes campeões intercontinentais e têm mais Copas do Mundo que a América do Sul. Quando olha-se para o contexto global, adquire-se o respeito de que a confederação trabalhou bem. Leva tempo, tem que ter paciência, seriedade, trabalhar muito com o mesmo objetivo. A América do Sul, que tem a paixão, tem condições de fazer as coisas muito bem.

Alejandro Domínguez compara mudanças da UEFA com as da Conmebol

Alejandro Domínguez compara mudanças da UEFA com as da Conmebol

Como vê a Copa do Mundo com 48 seleções?
– Não vejo que exista um lado político, porque creio que este Mundial demonstrou que equipes sem muito nome chegaram longe. Mais um motivo para termos 48 seleções. Teremos muito mais surpresas, as diferenças já não são tão grandes. Tem uma análise que gosto de fazer, lendo artigos de lugares diferentes do mundo, falando de fracasso sul-americano. Mas vale lembrar que temos cinco representantes, contra 13 europeus. Sim, saímos rápido. Mas quando saiu a Alemanha? Itália e Holanda não se classificaram. Foram só os sul-americanos ou todos com o rótulo de favoritos? Se com cinco (representantes), a América do Sul colocou quatro nas oitavas, se ampliarmos, acredito que haverá muito mais representatividade sul-americana. Estou seguro que Mundial com 48 equipes é apenas justiça. Nós merecemos. A qualidade vai subir.

O que fazer para tornar a Copa Libertadores mais atraente?
– O produto é muito atrativo, mas não foi trabalhado, nada foi pensado. Nos últimos anos estamos com mudança de formato, mostrando aos clubes que houve mudança de cultura. Regulamentos com antecipação, exigindo que formalidades sejam cumpridas. E agora teremos a final única. Vai ser um conteúdo que poderá ser vendido para o mundo. Nossos campeonatos são muito distintos aos da Europa. Nos nossos estádios desfrutamos de outra maneira, tem paixão. Na Europa é muito lindo, mas não há isso. Vejo um resultado muito positivo nas licitações, que vão gerar mais ingressos e melhores prêmios. É uma questão que está caminhando bem, e daqui a um tempo vai ser um produto diferente da Champions, mas que poderá ser entregue ao mundo.

“Hoje, quem joga a segunda partida (da final da Libertadores) em casa tem 70% de chance de sair campeão. Há injustiça, no campo neutro é para os dois. No campo neutro, a Conmebol pode organizar mais que o futebol. Terá atrativo turístico para cidade, país, marca que se vende melhor.Não é só uma final única, porque sim, porque é feito assim em outros lugares. Existem muitos benefícios”

Daniel Andrade e Marcos Uchôa entrevistam Alejandro Domínguez (Foto: Foto: Rodrigo Lois )

Daniel Andrade e Marcos Uchôa entrevistam Alejandro Domínguez (Foto: Foto: Rodrigo Lois )

A próxima Copa América será no mesmo ano da Eurocopa. Por que isso, e como está a preparação para a Copa de 2019, no Brasil?
– A Copa América tirava os jogadores dos clubes durante as competições que eles disputam. Bom o fato de os jogadores serem convocados quando a Europa também convoca. Também creio que, jogando ao mesmo tempo, com diferença de horário, ganha o futebol. Sobre a Copa América no Brasil, acredito que vai ser uma boa Copa. Esportivamente estou seguro que sim. Com respeito à organização, o Brasil tem total infraestrutura. Sobre receitas, estamos mais limitados porque lamentavelmente as administrações passadas já haviam vendido essa Copa. Temos pouco mercado para o que pensamos que pode gerar.

Via Globo Esporte

Tags relacionadas
Veja também
Comentários

Comentários encerrados!