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Venezuelanos deixam Roraima e retornam ao país após confusão com morte de brasileiro e imigrante

Grupo de aproximadamente 100 imigrantes que vivia nas ruas e em abrigo embarcou em ônibus na manhã deste sábado (8). Ação foi coordenada pelo consulado da Venezuela em Roraima.

Um grupo de aproximadamente 100 venezuelanos embarcou em ônibus para voltar ao país natal na manhã deste sábado (8) em Boa Vista. A saída, em meio a um clima tenso, aconteceu menos de dois dias após um brasileiro e um venezuelano serem assassinados durante uma confusão nos arredores de um abrigo para refugiados sem-teto.

O embarque começou no início da manhã em um acampamento vizinho ao abrigo e foi acompanhado por representantes do Consulado da Venezuela em Roraima. Eles não quiseram conceder entrevista, mas garantiram que a repatriação dos imigrantes em ônibus fretados pelo governo Maduro foi “por livre e espontânea vontade”.

Entre os venezuelanos que embarcaram e os que decidiram ficar os relatos foram os mesmos: há um clima de tensão desde as mortes do brasileiro e do venezuelano. Eles temem conflitos semelhantes ao que aconteceu em 18 de agosto quando acampamentos de refugiados foram atacados e queimados em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela.

“A situação está muito crítica. Estamos correndo perigo, não dormimos bem, temos que ficar correndo para nos proteger”, disse Lenin Tamaronis, 18, que decidiu regressar a Maturín, na Venezuela, com a mulher e o filho de 1 ano. “Estávamos vivendo na rua acerca de um mês”.

Tiros contra acampamento

Os imigrantes também disseram que na madrugada deste sábado, dois homens passaram em uma moto e atiraram contra o acampamento no entorno do abrigo Jardim Floresta. Não houve feridos, mas paredes e objetos ficaram marcados.

“Foram vários disparos e nós corremos para nos proteger perto do abrigo”, relatou um venezuelano que estava no acampamento durante a madrugada. “Tivemos muito medo”.

A Polícia Militar diz que não recebeu chamado para a ocorrência. O Exército, que cuida de ações relacionadas aos imigrantes, foi procurado, mas ainda não se manifestou.

Marcas que seriam de disparos contra acampamento de venezuelanos no abrigo Jardim Floresta (Foto: Arquivo pessoal )

Marcas que seriam de disparos contra acampamento de venezuelanos no abrigo Jardim Floresta (Foto: Arquivo pessoal )

Noheliny Suarez, 26, também decidiu voltar para a Venezuela. Ela estava há menos de 2 meses no Brasil e vivia no abrigo Jardim Floresta.

“Quero ir por causa do perigo que há aqui. Não quero que nada se passe comigo, tenho quatro filhos na Venezuela, e por isso quero ir, por eles. Aqui está muito tenso. Houve tiros aqui ontem à noite e já quiserem queimar o refúgio do outro lado. Sei que isso é culpa de alguns venezuelanos, mas nem todos temos culpa”, relatou.

Adriana Abreu, 39, que mora no acampamento nos arredores do abrigo fez uma lista dos venezuelanos que embarcaram. Ela disse que foram aproximadamente 100 e que a maioria relatou medo e insegurança.

Noheliny Suarez, 26, morava no abrigo Jardim Floresta e também decidiu voltar para a Venezuela: 'Aqui está muito tenso' (Foto: Emily Costa/G1 RR)

Noheliny Suarez, 26, morava no abrigo Jardim Floresta e também decidiu voltar para a Venezuela: ‘Aqui está muito tenso’ (Foto: Emily Costa/G1 RR)

“[Quando atiraram] não havia polícia aqui ontem. Não havia nada. Sabem que poderia haver uma represália contra as famílias. Qual os direitos humanos que defendem? Para que abriu a fronteira? Que [o Brasil] feche a fronteira e não deixe passar ninguém porque aqui ninguém está seguro. As pessoas estão saindo do abrigo [para voltar para a Venezuela]. Então nada está seguro”.

Após a saída do grupo, imigrantes que vivem em acampamentos nas ruas próximas se refugiaram no abrigo Jardim Floresta por medo de conflitos por volta das 12h15 (hora local). Eles ouviram o boato que seriam atacados naquele momento, e correram para dentro do abrigo. Alguns tinham pedaços de pau, facas e pedras nas mãos. Pouco depois, no entanto, saíram de lá. A Força Nacional e o Exército reforçam a segurança no local.

Imigrantes deixam o abrigo Jardim Floresta após correram para se abrigar no local (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Imigrantes deixam o abrigo Jardim Floresta após correram para se abrigar no local (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Acirramento da violência e clima de tensão

Na noite de quinta (6), o brasileiro Manoel Siqueira de Sousa, 35, foi esfaqueado após tentar conter um furto a um mercado. O suspeito do crime é o venezuelano Jose Antonio Gonzalez, 19, que foi linchado até a morte pouco depois.

Na noite dos crimes, testemunhas relaram à Polícia Militar que o imigrante teria furtado um mercado e, ao ser capturado por Manoel de Sousa, desferiu uma facada no pescoço dele. Em seguida, o venezuelano foi linchado. Ele teve o corpo arrastado até o local onde vivia – um acampamento nos arredores do abrigo Jardim Floresta. Ninguém foi preso e a Polícia Civil investiga as duas mortes.

Força Nacional reforça segurança em acampamentos no entorno do abrigo Jardim Floresta, perto de onde confusão terminou com morte de brasileiro e venezuelano (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Força Nacional reforça segurança em acampamentos no entorno do abrigo Jardim Floresta, perto de onde confusão terminou com morte de brasileiro e venezuelano (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Os dois assassinatos deixaram um clima de tensão entre moradores e refugiados. A confusão que resultou nas mortes aconteceu três semanas depois de acampamentos de imigrantes terem sido atacados e queimados em Pacaraima. A violência foi uma represália a um assalto: um comerciante disse que foi roubado e agredido em seu comércio por venezuelanos. Após o ataque,1,2 mil venezuelanos deixaram o Brasilíndios warao regressaram a Venezuela.

Em razão do que aconteceu em Pacaraima, o processo de interiorização de imigrantes, que consiste em transferi-los de Roraima a outros estados, foi intensificado, e o presidente Michel Temer assinou um decreto para Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

Os principais efeitos da medida, que é válida até 12 de setembro, foram a ampliação do poder de polícia das Forças Armadas em uma faixa de 150 KM nas fronteiras Norte (Venezuela) e Leste (Guiana), e o envio de mais militares a essas regiões. Com isso, os militares poderão atuar em casos de conflitos semelhantes ao de Pacaraima nas cidades que estão dentro da faixa de fronteira: Boa Vista, Bonfim, Uiramutã, Mucajaí e Pacaraima.

Via G1

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