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De Lula a rivotril: a vida de Palocci nos seus 794 dias de prisão

Domingo não era dia das visitas, mas era um dos mais esperados pelo ex-ministro Antonio Palocci e seus companheiros de cela em Curitiba. Aquele era o único momento da semana que eles desfrutavam da macarronada preparada pelo doleiro Alberto Youssef, que ficou famoso pelo prato. Mas faltava algo à mesa improvisada. Na lista das privações, uma boa taça de vinho não saía dos sonhos de Palocci. Bebida alcóolica na prisão, nem pensar. Deu-se um jeito. Após fermentar uma ideia na cabeça, o doleiro Adir Assad chegou com a solução: uma mistura do suco de uva da marmita, água, pimenta e vinagre. Estava pronto o melhor vinho do mundo. Palocci se refestelava. Em mais de uma ocasião, jurava para si mesmo que estava bêbado. Chegou a levar bronca do japonês da federal e do companheiro de cela Marcelo Odebrecht. Acreditaram que ele estava bebendo álcool, mas bastou um gole da mistura para deixarem o ex-ministro em paz com sua diversão.

Palocci não comenta esse e nenhum outro assunto. Procurado pela coluna, disse que só falaria com autorização judicial. As histórias da vida palocciana na prisão serão contadas em um livro que o ex-petista está escrevendo. Segundo pessoas próximas, ele tem dedicado ao menos quatro horas diárias ao projeto. O ex-homem de confiança de Lula garante que a vida de consultor ficou para trás, de uma vez por todas.

Plantar, ler e andar  

Mesmo sendo a pior experiência que já viveu, o ex-ministro confidenciou a amigos que, por incrível que pareça, sente saudade de alguns momentos na prisão. Lá ele plantou e deixou para trás um pé de maracujá que já alcançava o segundo andar do prédio da PF quando ele voltou para casa, há três meses. Na lida de agricultor — atividade que aprendeu na cadeia — distribuiu mais de 400 plantas a parentes de outros presos. Mudas de goiaba, pitaya, limão e temperos. O gosto pela jardinagem foi tamanho que ele acabou fazendo dois cursos a distância sobre o assunto. Com o ex-presidente da OAS, o empreiteiro Léo Pinheiro, que segue preso, fez experimentos até chegar ao melhor adubo para seu plantio.

A quem o visita, Palocci diz que as plantas, os livros (mais de 60 lidos) e as caminhadas foram seus antidepressivos. Todos os dias, andava três horas no pátio, fazendo o trajeto de um oito. A companhia de primeira hora era Marcelo Odebrecht. Aficionado por atividades físicas, o empreiteiro desenvolveu o percurso para que ninguém “roubasse” nenhum dos 35 passos nas curvas. Palocci diz a amigos que em suas contas teria chegado a pé aos Estados Unidos.

De advil a rivotril 

A medicina voltou à rotina de Palocci. Sem consultório, ele inaugurou na cadeia uma fila do SUS. De dores de cabeça e pressão alta a crises de pânico, o ex-ministro diagnosticava e medicava os presos. Agentes da PF justificam que, por ser médico, era o único autorizado a ter uma pequena farmácia. Um colega contou em tom de brincadeira que as prescrições do ex-ministro se limitavam a advil durante o dia e rivotril, à noite.

Palocci diz a amigos que o momento mais difícil foi quando viu presos dispostos a tirar a própria vida. Branislav Kontic, sociólogo e seu ex-assessor, foi um dos que tentaram suicídio. Segundo companheiros de cela da época, Brani acordou algumas vezes numa madrugada, mas não levantou na manhã seguinte, quando todos já estavam de pé. Palocci mediu seu pulso, a pressão e pediu que chamassem o SAMU. Quando uma médica autorizada pela PF chegou, o ex-ministro mostrou três cartelas de antidepressivos vazias. Brani chegou a entrar em coma, mas sobreviveu.

A culpa é do PT

Dois meses depois de ser preso, o ex-ministro incumbiu seu advogado de uma missão: estudar se o PT poderia fazer um acordo para assumir seus pecados em troco de uma pena menor. O chamado acordo de leniência nunca andou. A ideia não era nova. Em 2016, o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, que já estava preso em Curitiba e que por lá segue, havia mandado recado ao ex-presidente Lula com a proposta.

Na época, Lula se reuniu com Palocci, ainda solto, para tratar do assunto. O ex-ministro, que já sentia a Lava-Jato nos ombros, apoiou, mas Lula foi contra. Repetia que o PT não tinha que se autoflagelar. Pouco mais de um ano após o encontro e preso na carceragem da PF, o ex-ministro voltou a insistir que o PT buscasse um acordo com a justiça. Chegou a falar do assunto com o ex-ministro José Dirceu em uma passagem dele pela PF quando também estava atrás das grades. O petista aprovou a ideia. Advogados contam que a resposta nunca veio e, meses depois, o ex-ministro partiu para a auto-salvação: a delação premiada.

Tão perto e tão longe de Lula

Três andares separavam Palocci do ex-chefe, o ex-presidente Lula. Nos sete meses em que os dois estiveram presos na PF de Curitiba, nunca se viram. O dia em que o ex-ministro sentiu a presença de Lula mais próxima foi quando um desembargador ordenou a soltura do petista. Palocci contou a amigos que ouviu helicópteros o dia todo sobrevoando o prédio. Junto com os presos, ele acompanhou pela TV o desfecho da história. Naquele dia, Lula não chegou a sair da prisão.

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