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Em carta, Conmebol reclama de “discriminação” e “abuso de poder” da Fifa, que rebate


Cancelamento de reunião no Paraguai é estopim de nova crise diplomática

Por Martín Fernandez — São Paulo

É cada vez mais tensa a relação entre Conmebol e Fifa. Nos últimos dias, dirigentes das duas entidades trocaram cartas – às quais o GloboEsporte.com teve acesso – em tom cada vez menos diplomático. As divergências se acumulam há pelo menos um mês, desde que Conmebol e Uefa (sua equivalente europeia) passaram a discutir uma agenda em comum, à margem da Fifa. Até um minitorneio de seleções está nos planos.

A temperatura subiu muito na semana passada, quando a Fifa cancelou uma reunião de Conselho que estava marcada para ocorrer em Assunção, no Paraguai, e a transferiu para Zurique, na Suíça. A decisão desagradou ao presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez. A reunião será realizada no dia 20 de março.

Numa carta datada de 19 de fevereiro e endereçada ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, Domínguez escreve ter recebido a mudança com “assombro e decepção”. No documento, o dirigente sul-americano afirma que a decisão de cancelar o evento por causa da distância “viola o princípio da não discriminação promovido pela Fifa ao longo de sua história, […] representa uma decisão unilateral e excludente, que representa um claro abuso de poder”. E deixa claro que desconfia dos motivos alegados pela Fifa para ter tirado a reunião do Paraguai.

– Este lugar [o Paraguai], que os senhores enxergam como distante, ineficiente economicamente e com riscos para a saúde, acaba de abrigar exitosamente um Mundial de Futebol de Praia, além de abrigar um escritório de desenvolvimento regional da Fifa. Entre outras coisas, daqui também saíram alguns dos melhores jogadores, treinadores e árbitros do mundo, que contribuem com a grandeza deste esporte – diz um trecho da carta.

Domínguez lembra ainda que recentemente houve reuniões de Conselho – a principal instância dentro da Fifa, formada por 36 membros de todos os continentes – em locais como Calcutá, Miami, Xangai e Moscou, e que nunca “distância foi um critério determinante”.

O presidente da Conmebol lamenta o fato de que a Fifa tenha citado o aumento do número de casos de coronavírus como um dos motivos para tirar a reunião do Paraguai.

– Até o momento, os diferentes órgãos internacionais de saúde pública não detectaram nenhum caso de contágio por esta doença na América do Sul, menos ainda no Paraguai, fato que está distante, infelizmente, da realidade de outros continentes […] Considero que a menção ao coronavírus como fator para não realizar a reunião no Paraguai carece de fundamentos consistentes e rigorosos próprios de uma organização que rege os destinos do futebol internacional.

Quando decidiu trocar a sede da reunião de Assunção para Zurique, a Fifa também argumentou que a mudança traria “benefícios econômicos”. Na carta a Infantino, Alejandro Domínguez (que também é vice-presidente da Fifa e presidente do Comitê de Finanças da entidade) contesta essa premissa.

E por isso pede para a entidade apresentar “um relatório detalhado” com todos os custos das últimas cinco reuniões de Conselho (Xangai, Paris, Miami, Kigali e Moscou), além dos gastos do cancelamento do evento no Paraguai. Por fim, Domínguez sugere que a Fifa determine “critérios de seleção” para suas próximas reuniões de Conselho.

Resposta da Fifa

A carta de Alejandro Domínguez foi enviada para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, mas quem respondeu foi Fatma Samoura, secretária geral da entidade.

No documento, Samoura afirma que de nenhuma maneira “pretende faltar com o princípio da não discriminação ou com o respeito a nenhuma das pessoas envolvidas nos preparativos [da reunião no Paraguai]”.

– Estou convencida de que, apesar da compreensível decepção inicial, aceitará esta decisão, tomada depois de pesadas as circunstâncias do momento, os comentários e os pedidos de vários de seus colegas. Também confio que você comparte nossas preocupações e esforços em matéria de sustentabilidade e otimização de gastos, sabendo que o futuro passa por uma maior responsabilidade e sensibilidade nestes âmbitos – diz a dirigente da Fifa.

Fatma Samoura lembra ainda que, desde que assumiu o cargo de secretária-geral (em junho de 2016), a América do Sul recebeu cinco torneios da Fifa – Olimpíada do Rio em 2016, Mundial de Futsal na Colômbia em 2016, Mundial Feminino Sub-17 no Uruguai em 2017, Mundial Sub-17 no Brasil e Mundial de Beach Soccer no Paraguai em 2019.

– Mais que nenhuma outra região do mundo neste período – acrescenta Samoura.

A secretária-geral da Fifa diz ainda vai pedir para a administração da Fifa que sejam analisadas as sugestões de Domínguez. Tanto o detalhamento dos custos das últimas reuniões quanto o estabelecimento de critérios para a escolha da sede das próximas reuniões de Conselho.

– É meu desejo que esta carta sirva para confirmar o pleno compromisso e o respeito da Fifa para com todos os atores do futebol americano.